Filé de frango, Arroz, farofa de mandioca e purê de milho
Encontro conforto na melancolia. E se a alegria amasse alguém, ela amaria a Tristeza. A Tristeza que te beija com os lábios molhados, que te abraça com a água quente fervendo, e o cheiro, o cheiro saboroso da cebola que se mistura com o alho no arroz, un ménage à trois, alegria, Tristeza e a vida. O alho que dá sabor, a cebola que te faz chorar e o arroz branquinho na panela.
Se eu pudesse beijar um sentimento, eu beijaria a Tristeza, pois seria eu alegria para ela, e se por milhões de lágrimas se juntassem após o corte na cebola, tornaria elas todas em rios onde floresceriam vida, de peixes e folhas em uma floresta azul. Tristeza, porque me olha assim? Será que pode dar cabo a luz dos olhos meus que te atravessam e te revelam a dor de precisar de um alívio? Um suspiro em um domingo de praia? Ou até mesmo um nublado-chuva em uma segunda feira?
Por poder ou conhecer que me pertença ao lugar que me espera, o fim do começo ou o começo do fim, pedi-la, ó Tristeza, sua mão em casamento deixaria bem a ser assim, segurar em abraços os contos de antigamente, das histórias passadas que ficarão para trás e das folhas de carvalhos sombreando os espaços que recheiam o vazio da nossa existência. Se toda existência precede uma essência, para quem Sartre a Tristeza pode explicar? Você chega até mim de maneira silenciosa, sem fazer barulho ou nem um cetim de embrulhos que atormentam a secura de minha garganta. Olho para a minha caneca de café com ânsia e o cigarro entres os dedos queimando como queima o meu estômago quando penso que tenho que ir dormir para acordar de novo no outro dia.
De todos os meses da minha vida Tristeza, e de todos os dias que fazem no calendário greco-romano a sua composição, a hora do dia mais difícil sempre é a de se levantar da cama. Você sempre recobra a mim nesses momentos, quando me deito e levanto, você se deita e levanta comigo, quando escovo os dentes ou os deixo de escovar por não sentir vontade ou por desprezo a minha própria condição, você está lá. O que tem meu estômago a esperar quando confronto você Tristeza com a alegria que tento ser para ti? Meu corpo veste nu as frias palavras que cobrem meu corpo quente de vermelho, teu corpo te acalenta as duras frases que remetem a não aguentar mais, de querer desistir, de não querer mais fazer parte disso, de querer fugir, tentar outra coisa, fazer diferente, talvez se fosse mais verde ou menor do que sou, até mesmo se tivesse mais cabelo, talvez isso tudo seria diferente, talvez encontraria saída para mim, Tristeza.
Não poderias mais fazer sabor nenhum se assim fizesse, pois te julgo Tristeza por ser assim, tão complacente e conveniente com a realidade, por isso jamais conseguirei ser alegria para ti, uma vez que sou fraco e magro demais para preencher qualquer alegria que pudesse continuar a ferver o seu corpo no meu. Pois nada poderá salvar nós de nós mesmos, somos para cada um de nós o sentir que reforça o efeito revelador dos meus olhos para os seus, estamos aqui por condição histórica de nosso próprio tempo, e viremos a ser qualquer coisa que seja após definirmos nós a seus olhos o que somos, Tristeza. Não poderia eu te salvar e nem mesmo você me salvar de ser assim no lugar em que estou, nem por mil lamentos e o que range a garganta ao cantar, e o que dói os dedos ao tocar e o que raspa as cordas por entre os dedos sussurrar, dirigindo os seus lábios nos meus em um samba período-azul de Picasso as várias pinturas que derramam as lágrimas ao colorar.